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5 razões pelas quais o “faça o que ama” não é a solução
02/12/2014

Por: Daniela Carasco

Quantas histórias de pessoas que largaram tudo para fazer o que amam você já viu aparecer na timeline do seu Facebook? Várias?

Agora, quantas dessas histórias você ficou sabendo pela mesma via que fracassaram? Provavelmente, nenhuma, certo?

O imperativo da busca pela felicidade em todas as áreas da vida, principalmente na profissional, tem tomado as redes sociais com depoimentos inspiradores.

Entretanto, pouca gente fica sabendo que o discurso incessante do largue tudo e “faça o que você ama” pode ser, na verdade, uma armadilha.

Quem alerta é Bárbara Castro, socióloga especialista em questões do trabalho e professora do curso de sociopsicologia da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

Bárbara disse ao Brasil Post não ser possível determinar com precisão quando este discurso começou a se tornar tão onipresente, mas contou que “ele está muito vinculado ao crescimento da Internet e das redes sociais”.

O meio digital tem contribuído para a disseminação dele. Insatisfações com o trabalho e demissões em massa têm forçado muitos profissionais a buscarem novos caminhos.

E por que não o da felicidade profissional mais plena? É aí que entram em jogo os desejos de abrir um negócio próprio ou então de tirar um período sabático.

Mas, segundo a socióloga, tomar qualquer uma dessas decisões não é para todo mundo e pode, na verdade, impedir que as relações de trabalho sejam aprimoradas. Confira os motivos pelos quais ela acha válido olhar de maneira mais atenta a essa “nova” onda:

É um discurso motivado pela febre do empreendedorismo, que nem sempre é satisfatório

Segundo Bárbara, o contexto de um mercado de produção extremamente pulverizado, que tem valorizado cada vez mais a terceirização do trabalho, desde os anos 90, vem contribuindo para o crescimento do empreendedorismo.

“As pessoas passaram então a largar tudo para abrir o seu próprio negócio, com o intuito de ter autonomia sobre o seu trabalho, fazendo o que gosta”, conta. E não se trata de ganhar muito mais dinheiro.

“A maioria dos novos empreendedores está conseguindo ganhar um salário equivalente ao que ganhava como contratado de uma empresa”, diz ela.

“O que as pessoas acham incrível é não precisar mais bater ponto, ter liberdade para organizar os horários. Mas logo começa a rolar uma frustração muito grande. Primeiro, porque de um chefe você passa a ter cinco ou mais, que são os seus clientes. Segundo, porque você passa a ter um controle ilusório do seu trabalho, que diz respeito apenas à maneira como você o organiza. Pois, no fim das contas, o produto final será aquilo que o cliente pediu. E aí se realiza que essa liberdade criativa também tem um limite fora da empresa. E isso também vira uma angústia, neste caso gerada pelo contratante, de como encontrar sentido no trabalho que está sendo feito”, explica a socióloga.

É um discurso glamurizado

Pedir demissão para sair pelo mundo em uma viagem sabática: quem não quer? O problema é que nem todo mundo pode fazer isso.

“E é por isso que digo que o discurso é glamurizado. É a ideia do ‘ame o que você faz’ morando em Londres, durante um sabático, para tentar se encontrar, quando na verdade não é todo mundo que pode efetivamente. Não digo isso como uma condenação moral para quem faz. O que me incomoda é vincular o sucesso – e a felicidade – a um estilo de vida específico, que não diz respeito somente à condição financeira, mas também à possibilidade de ter controle sobre o próprio tempo, acordar ao meio-dia… E isso acaba tendo um efeito moral complicado, que causa ansiedade e sofrimento em quem não consegue atingir essa expectativa”, explica Bárbara.

Até porque a gente só toma conhecimento das histórias que deram certo, mas e as milhares de pessoas que tentaram, mas se frustraram? Nem sempre as pessoas têm vocação para esse estilo de vida que está sendo alardeado.

E tem o fato de ser glamurizado, porque quem consegue realizar esse “sonho” só consegue ser feliz contando a experiência para os outros, tornando aquilo público. Vira uma questão de ego.

Impede que as pessoas aprendam um pouco com o sofrimento

“Porque a gente precisa ser feliz com o trabalho que a gente faz? Porque não pode sofrer com as contradições?”, questiona a socióloga.

Segundo ela, o grande problema da narrativa do “ame o que você faz” é que ela está vinculada a um discurso de felicidade que é “estar no topo da montanha russa o tempo inteiro”. Como se uma vida normal, cotidiana, rotineira não pudesse ser uma vida de satisfação. Tudo isso torna esse cenário preocupante.

“Para não falar da medicamentalização do sofrimento psíquico, que tem que ser naturalizado. Então você vai ao consultório psiquiátrico, diz que está triste e o psiquiatra te receita um Prozac, como se você não pudesse sofrer um pouco também. E não estou dizendo que a gente tem que ser feliz com coisas entediantes, com a rotina do trabalho, mas é entender que isso faz parte da vida, para o crescimento”, acrescenta ela.

Abafa os problemas de como o trabalho está organizado hoje

Decidir abandonar a corporação para seguir uma vida mais “prazerosa” também pode ser uma forma de deixar de lado a luta por uma mudança na organização do trabalho, que tem causado tanta insatisfação.

Por trás da sala de jogos, do cantinho do descanso e de outros ambientes de lazer montados dentro dos escritórios, estão os salários ruins, as horas extras não pagas, os feriados sacrificados por uma entrega urgente. O discurso de trabalhar mais do que oito horas por dia se normalizou. Parece que as pessoas olham torto quando alguém cumpre o horário. Mas e o tempo destinado à vida privada?

Para Bárbara, “quando a gente consegue enxergar essas contradições, a gente consegue questioná-las para melhorar o ambiente e até para tentar transformar o trabalho, que é organizado de maneira predatória. Não acho que as pessoas não possam ser felizes com o trabalho. Temos que problematizar um pouco as consequências que isso pode trazer e as relações de poder que isso possa estar mascarando”.

É essencial que as relações de poder sejam questionadas e novas relações de trabalho reivindicadas para que se consiga ter uma vida com menos sofrimento no trabalho.

“Para a gente não odiar tanto o espaço em que estamos”, explica. Até porque todo produto final não é de quem fez, mas para quem se fez – empresa ou cliente. Por isso a ponderação da angústia e o questionamento são importantes para que o trabalho faça sentido.

É uma ideia individualista

“Essa busca da felicidade fica muito focada no indivíduo”, lamenta Bárbara. O que deveria estar em jogo, na verdade, é uma solução que fosse boa para todos, algo que pudesse melhorar o trabalho coletivamente.

O ideal é que seja encontrado um equilíbrio. Como? Talvez trocando o discurso do “faça o que você ama” pelo do “trabalho mais decente” e desapegando da ideia de que para ser bem-sucedido é preciso fazer a melhor faculdade, trabalhar na melhor empresa da área, conquistar o cargo mais alto, ganhar muito dinheiro e ainda ser reconhecido por isso.

“Não acho que as pessoas não possam ser felizes com o trabalho. Temos apenas que problematizar um pouco o que isso pode trazer e as relações de poder que isso possa estar mascarando.”, aconselha Bárbara. E, claro, balancear o trabalho e a vida privada. É necessário ter tempo para os amigos, família e para qualquer outra atividade, veja bem, lúdica.

Fonte: Blog Televendas & Cobrança/ Exame

 

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